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"Todos temos coisas na vida que valem a pena ser contadas, escritas. Mesmo que não para publicar, escreva-as para a família."Ilko Minev



quinta-feira, 22 de janeiro de 2015

Bienal do Livro do Ceará 2014 (III - Mesa Biografar brasileiros)


Fotos: Denis Akel
Cena do filme O Sujeito Oculto: Google

Dando continuidade à série de postagens sobre a Bienal do Livro do Ceará 2014, enfoco agora a mesa Biografar brasileiros, que aconteceu na segunda-feira, 8 de dezembro.

Assim que a identifiquei e considerei, lendo a programação, percebi também que esse seria um dia bastante cheio, uma vez que haveria ainda uma outra mesa, novamente destacando Milton Hatoum, um dos homenageados do evento. Sabendo que passaria por uma boa maratona de palestras, nesse dia optei por não visitar os expositores de livros, e imagino que com isso com certeza economizei algum dinheiro.

Biografar brasileiros trazia os jornalistas e biógrafos Lira Neto e Mário Magalhães, mediados pela escritora cearense Socorro Acioli. O que mais me atraiu para essa mesa, inicialmente, não foi nenhum dos três, mas apenas o tema em si: biografias. Tenho cada vez mais me interessado pelo assunto, inclusive boa parte dos livros que comprei nesta edição da Bienal foram justamente biografias. A extensa pesquisa feita sobre uma vida, a responsabilidade do biógrafo ante o biografado, o tom da escrita, eram algumas das questões que sempre tinha em mente. Essa mesa me pareceu uma excelente oportunidade de mergulhar um pouco mais neste universo.

Conhecia bem do alto o nome de Lira Neto, que escreveu, entre outras, biografias de Getulio Vargas, Maysa e Padre Cícero. Sabia que ele, embora cearense, morava agora em São Paulo, e era sem dúvida uma autoridade no assunto. Já Mário Magalhães foi uma total surpresa, e muito bem-vinda. Os dois, obviamente, se conheciam há tempos, como ficou perceptível ao início e durante todo o debate. A sala, intitulada "Contos Escolhidos", em virtude à homanagem à Moreira Campos, seria novamente o palco da mesa, marcada para as 15h. Cheguei dessa vez com grande antecedência, o que facilitou a poder escolher um lugar mais à frente, bem como me preparar melhor para poder, tal como fiz na outra palestra, registrar em fotos e por escrito tudo o que pudesse.

Pouco a pouco o público foi chegando, tomando lugares. Não tardei a identificar Lira Neto e Socorro Acioli, tão logo entraram no auditório. Carolina Campos, neta de Moreira Campos, novamente se fazia presente, bem como outras pessoas que não conhecia, mas já vira na mesa anterior e imaginei também terem alguma relevância. A movimentação crescia, ainda que ficasse claro que o público total não lotaria a sala.

Mesmo antes de iniciar a palestra, Lira Neto já era solicitado pelo público
E então teve início a mesa, com um atraso de quinze ou vinte minutos. Socorro Acioli começou fazendo uma breve introdução dos convidados, sobre as extensas pesquisas que fizeram para realizarem suas obras centrais, Getúlio, de Lira Neto, e Marighella, de Mário Magalhães. Seguem então as principais colocações que pude colher, ao longo do seminário:

Sou apaixonado por pesquisa, um rato de arquivo – Mário

Há tesouros nunca remexidos nos arquivos nacionais – Mário

Cada um é legalmente responsável pelo uso que vai fazer dos arquivos públicos – Mário

Não há ar condicionado funcionando no arquivo público do estado da Bahia. O pesquisador acaba por destruir os tesouros históricos, uma vez que os documentos, seculares, não resistem ao contato manual – Mário

É preciso correr atrás. Está tudo lá, apesar das péssimas condições de armazenamento – Mário

Mário Magalhães (autor de Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo), falou um pouco do processo de coleta de dados, das longas pesquisas que precisam ser feitas, na condução da biografia, que explorou todos os detalhes da vida de Carlos Marighella e de como esse trabalho lhe tomou 9 anos. Uma curiosidade imediata surgiu em mim assim que ele mencionou os arquivos nacionais, uma vontade de conhecer esse acervo, que está aberto e disponível a qualquer um. Contudo, o alerta dado a respeito da precária conservação destes documentos foi uma surpresa. Imaginei que documentos históricos, com tanto peso e relevância, seriam mais bem preservados, mas segundo Mário muitos estão em condições lastimáveis, isso quando não acabam sendo descartados pelos próprios responsáveis do acervo.



Após este momento inicial com Mário, a palavra foi passada a Lira Neto, que agradeceu à organização do evento pelo convite, oportunidade de voltar à sua terra, e contrafez os inúmeros elogios feitos por Mário, como grandes amigos que são, um conhecendo muito bem o trabalho do outro. E então fez algumas considerações:

Moreira Campos é um dos maiores autores da literatura universal – Lira Neto

A pesquisa para o livro Getúlio teve vários eixos, em Berlim, Roma, entre outros, uma vez que o próprio Getulio se envolveu com o nazi-facismo – Lira

Getúlio guardava tudo o que escrevia, de modo que isso facilita o trabalho de qualquer um que quiser biografá-lo. Boa parte desse arquivo pode ser acessado pela internet – Lira

O site da biblioteca nacional fornece a qualquer um conteúdo de alto valor histórico – Lira

Há tesouros pedindo para serem visitados, tais como as cartas trocadas entre Getulio e sua filha, Alzira – Lira

Era preciso fazer um trabalho de confiança pessoal com as pessoas dos arquivos, para se ter acesso, pouco a pouco, aos documentos mais importantes – Lira

Há um filme que homenageia Guimarães Rosa, O Sujeito Oculto, que foi amplamente proibido de divulgar a imagem do autor, pois os herdeiros se julgaram donos de sua imagem, de modo que foi preciso recortá-lo de todas as imagens para o lançamento deste – Lira

Cena de O Sujeito Oculto, na qual se vê claramente o recorte onde Guimarães Rosa deveria estar

A legislação hoje autoriza que se queime os arquivos do ministério do trabalho com algumas décadas de existência – Mário, que acredita que tal medida dificulta o trabalho de pesquisadores, pois muitos documentos que podem vir a ser importantes acabam sequer sendo descobertos).

Durante toda a palestra, observei a propriedade com a qual ambos, Lira e Mário, versavam sobre seus temas, seus biografados. Eram tão naturais, quanto ao que diziam e defendiam, com amplo e preciso conhecimento de datas e fatos, quase como se tivessem conhecido de fato seus retratados.

"Isso eu nunca contei pra ninguém", frase que enlouquece qualquer biógrafo ou pesquisador, diz Mário, que entrevistou 256 pessoas, das quais 40 já morreram, tão velhinhas como ele (Marighella).

A grande informação, que é fundamental pro teu livro, pode te valer um capítulo, mas é tão bom quando surge uma história simples e você percebe que ali pode estar o final de seu livro – Mário

Ambos os autores, Lira e Mário, partilham a ideia de que a avidez de informação pode inundar a vida do biógrafo, fazendo-o se dedicar integralmente a isso, e que jornalistas, por se aterem apenas a contar a verdade, ficam frustrados quando por acaso algo que julgar saber se revela como errôneo.

A cada biografia feita, fica a apreensão: será que o livro será publicado? Será que ficará muito tempo nas livrarias? Terá problemas com os herdeiros? – Lira

Lira contou ainda as polêmicas que teve com a Rede Globo, por conta de não colocarem seu nome nos créditos da minissérie Maysa. Disse que assistiria à série, e caso encontrasse nela alguma informação que ele tivesse descoberto, tomaria as medidas cabíveis. Felizmente, ao final, pelo que consta, a emissora voltou atrás e creditou o jornalista.

Muitas vezes a pessoa sabe que pode se machucar emocialmente lendo uma biografia (caso da neta de Getulio) mas sabe da importância de alguém escrever e relatar aquela história tal como ocorreu – Lira.

Mário abordou a questão das biografias não autorizadas e sua fragilidade, de modo que a todo instante pode surgir algum herdeiro; filho, sobrinho ou neto, que tem plenos poderes para tirar o livro de circulação, uma vez que se sinta de alguma maneira ultrajado, caluniado. Isso é uma tragédia, pois faz com que inúmeros projetos não andem, tamanhas as dificuldades. O autor de Marighella também citou os problemas da legislação brasileira, que dificulta todo o trabalho não só de biógrafos como de qualquer artista que por acaso venha  cruzar com herdeiros ou descendentes, que impeçam exposições, filmes, livros e afins. É uma tragédia.

A mesa seguiu, a química entre os dois era notável, moldando a palestra com um ar de conversa informal. À medida que eu assistia, vez ou outra virava a cabeça para as pessoas do público. É sempre interessante ver as expressões, os comportamentos, perceber como aquilo parece mudar também aquelas outras pessoas. Houve um momento bastante curioso, no qual uma pessoa da plateia, subitamente, sem qualquer razão aparente, começou a bater palmas ruidosamente, durante uma fala de Lira. Não sei se por concordar muito com o que ele dizia, ou talvez só por ironia, mas atenção ele certamente conseguiu chamar.

Em um dos momentos finais, um senhor com o cabelo levemente azulado, sentado à primeira fileira, disse a Lira Neto, em tom quase profético, que deveria se fazer a biografia de um grande cearense, Edson Queiroz. Lira, calmamente, limitou-se a dizer que não fazia biografias encomendadas, e seguiram-se aplausos de todos. O homem de cabelo azul ficou ainda perdido numa exclamação de surpresa, antes de ser absorvido nas palmas do público. Chegava ao fim a mesa.


Em seguida, houve ainda um breve momento no qual ambos autografaram seus livros e conversaram mais um pouco com os mais interessados. Nesse momento, tratei de rever o que tinha escrito e colhido da palestra, percebendo uma boa dimensão de tudo o que fora falado, além de tudo o que não consegui registrar, mas apenas sentir e refletir. Essa, com toda a certeza, foi uma das melhores mesas que pude assistir da Bienal, por ter desvelado minúcias e peculiaridades que fazem parte do trabalho do biógrafo.

Antes de encerrar, aproveito a oportunidade para falar mais um pouco sobre o filme O Sujeito Oculto. Por se tratar de um filme sem fins lucrativos, ele está disponível no Youtube, neste link, e o  recomendo imensamente. O filme enfoca uma viagem feita por Guimarães Rosa com um grupo de vaqueiros, em Minas Gerais – mas vai bem além disso. Por conta da impossibilidade de se usar a imagem do escritor, a obra adquiriu um ar de protesto, em prol do direito e da liberdade de se contar uma história. Afinal, é bem como Lira Neto e Mário Magalhães falaram: herdeiros e descendentes se julgam mesmo donos de imagens e, como o filme completa, imagens que se não forem lembradas, homenageadas, tendem mesmo é a ser esquecidas.

Na próxima postagem,  a mesa Milton Hatoum no cinema.

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