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"Todos temos coisas na vida que valem a pena ser contadas, escritas. Mesmo que não para publicar, escreva-as para a família."Ilko Minev



domingo, 16 de maio de 2010

Bienal do Livro 2010: minhas impressões (VII- Marina Colasanti)


Esta penúltima parte desta série de postagens demorou um pouco mais do que previ para ser finalizada, como acaba sempre acontecendo. Levei algo em torno de dez dias para estruturá-la e organizá-la da maneira como pode ser vista nas próximas linhas. A data real da postagem é 19 de maio. Desta vez, há poucas fotos, pois preferi valorizar mais a gravação de vídeo (também por não dispor de bons enquadramentos para fotografar). Mais uma vez, também, é um texto de tamanho considerável, então peço novamente a paciência daqueles que começarem a ler ;)

Após a participação de Maurício de Sousa, que foi terminar lá para as 15:30 (indo além até, para os que estavam na fila dos autógrafos), eu teria ainda pela frente, no mesmo dia, a expectativa da palestra de Marina Colasanti, famosa e conceituada escritora.


No último dia da Bienal, Marina faria sua palestra com o tema Literatura pela e para crianças. O encontro estava marcado para começar às 17:00, com uma hora de duração, na arena Memorial de Maria Moura, um dos principais palcos para palestras e apresentações do evento.


Comecei a conhecer a obra de Marina Colasanti através do programa ABZ do Ziraldo, que trouxe uma entrevista com a escritora em uma das primeiras apresentações que comecei a acompanhar. Lembro de não ter podido assistir no momento que era exibido, mas gravei, com o intuito de ter a entrevista como referência futura. Alguns dias depois, fui dar uma volta por uma livraria e vi um livrinho de contos de Marina. Comprei de imediato. Devorei algumas páginas ainda na livraria, lendo outras tantas em casa. Comecei então a entender melhor quem é Marina Colasanti.


Suas histórias, fortes, densas e misteriosas, são banhadas de fantasia, principalmente os contos de fada, geralmente enfocando a imagem feminina como destaque, em uma narrativa que transcende o real, conduzindo-nos a um mundo onde tudo é possível; onde tudo parece perfeitamente em harmonia.


Quando soube que Marina Colasanti estava na lista dos convidados desta Bienal do Livro aqui do Ceará, quase não acreditei. Como já disse em postagens anteriores, juntamente com a presença de Ziraldo e Pedro Bandeira, foi uma feliz e impressionante coincidência ter palestras dos três em um período que eu começava a entender melhor a obra de cada um.


Assim, assisti o quanto antes à entrevista de Marina que tinha gravado, para conhecer um pouco mais sobre ela, de antemão, e ter mais ou menos uma prévia do que poderia esperar de sua participação na Bienal.


Voltando ao tema principal, uma vez fora do sufocante auditório onde ocorrera a palestra de Maurício de Sousa, vi que ainda faltava um tempo considerável para o início da apresentação de Marina. Imaginei que certamente não haveria filas, ou senhas, muito menos entrada controlada, e de fato não houve. De início, achei que haveria até bem pouca gente, pois seria um público mais seleto do que o que esteve no Maurício, mas como não quis arriscar ter de ficar em um lugar desfavorecido, como aconteceu no dia do Pedro Bandeira, optei por não gastar esse tempinho que teria em algum estande qualquer (também porque àquela hora o Centro de Convenções estava tão lotado que já desanimava pensar em enfrentar as multidões para procurar algum livro), mas bem que tentei usá-lo para comer alguma coisa, no café, afinal ainda restava pouco mais de uma hora para o início da palestra. E aí veio uma surpresa nada agradável: o café estava fechado.


Não chegava a estar desativado, pois lá dentro o movimento era normal, com pessoas na fila do caixa e outras tantas nas mesas, devorando seus lanches. Só que as portas envidraçadas que separavam o espaço dos corredores da Bienal estavam seguramente fechadas, com alguns seguranças à frente para garantir que ninguém entrasse. Aparentemente, estava havendo algo ali dentro, e seja lá o que fosse não parecia aberto ao grande público. Bem que suspeitei que um espaço como aquele não estaria sempre disponível, que mais cedo ou mais tarde pudesse acontecer algo parecido. Mas tinha que ser logo naquela hora? Eu estava apenas com o almoço, e já passava das 16:00. Ansiava por um calzone, empada ou qualquer outra coisa junto com um copinho de café com leite, e preferencialmente antes da palestra, mas daquele jeito não tinha muito o que fazer. Ainda troquei uma palavra com um dos seguranças, para tentar descobrir o que se passava. Ele até que respondeu, mas nada muito claro, apenas murmurou alguma coisa relacionada a uma sigla que desconheço, voltando-se em seguida para conter outras pessoas que se aproximavam.


Foi assim que acabei ficando sem lanche. Ainda havia uma lachonete mais modesta próxima onde tinha se aglomerado a fila para Maurício de Sousa, mas era um espaço tão denso e abafado - além de que certamente estaria lotado - que sequer cogitei a possibilidade. Comprei um ou dois chocolates apenas, e fui direto - na medida do possível, pois tive que nadar contra a correnteza de pessoas que inundava todas as passagens, a caminho da arena Memorial de Maria Moura.


Passei pelo espaço do cordel sem muitas dificuldades, e à entrada da arena, nenhuma fila, mas uma movimentação considerável chamou minha atenção. Aparentemente não havia tão pouca gente assim para assistir à palestra. Segui pelo espaço onde, nas palestras anteriores acontecidas ali, ficava o balcão que vendia livros do escritor convidado e vi que dessa vez não havia balcão nenhum. Por alguma razão, ali não venderiam livros de Marina Colasanti. Era no mínimo um fato estranho, mas que me levou à conclusão de que talvez não houvesse sessão de autógrafos. Em todo o caso, eu tinha levado o livrinho que comprara recentemente.


Chegando ao espaço da arena propriamente dito, vi que de fato já havia um público razoável esperando o início da palestra, que ainda demoraria alguns minutos. A disposição dos lugares era praticamente a mesma do dia de Moacir C. Lopes. As arquibancadas ainda estavam bastante livres, mas não se podia dizer o mesmo dos almofadões. Já as cadeiras, arrumadas lateralmente, não atraiam muita gente, talvez justamente pela péssima disposição. Com toda a certeza, essa foi uma das falhas graves de algumas das palestras ali ocorridas. Com as cadeiras arrumadas desse modo, parecia até que os que nelas se sentavam faziam parte de um coral, orquestra ou algo parecido, que de alguma forma participaria efetivamente da apresentação, dando suporte às palavras do convidado. Mesmo não tendo nenhum instrumento ou partitura a seguir, os que sentavam ali tinham que tentar prestar atenção, mas sem ter uma visão aceitável da mesa, pois era impossível vê-la de frente. Via-se sempre os que falavam de perfil. Não era à toa que a maioria subia logo às arquibancadas.




Como tinha chegado com mais de meia-hora de antecedência, pude escolher um lugar tranquilamente. Acabei optando pelas cadeiras, porque havia uma caixa de som bem ao lado, de modo que imaginei melhorar a captação das gravações que eu viria a fazer. Uma vez sentado, comecei a tirar algumas fotos do ambiente, enquanto iam chegando mais pessoas, mas sem atropelo ou confusão. Perto do palco, uma projeção exibia um show de uma banda qualquer para distrair os já presentes. Era uma ideia interessante, exceto pelo volume excessivo que tinha sido colocado. Acho, inclusive, que o melhor era passar algum documentário referente à literatura, talvez até sobre Marina Colasanti; iria bem mais de encontro à proposta da Bienal.







Faltando cerca de dez minutos para as 17:00, Marina chegou à arena. Não houve muita movimentação próximo a ela, que ficou aguardando em uma das cadeiras da primeira fileira. Quando o apresentador da Bienal subiu ao palco para iniciar uma das últimas programações do evento, as arquibancadas já estavam quase completamente lotadas, e até as cadeiras mostravam poucos lugares vazios.


A seguir, foi chamada a professora (e também escritora) Socorro Acioli, que faria a mediação da palestra. O tema, como falei lá em cima, era Literatura pela e para crianças. No palco, a professora chamou Marina Colasanti, que foi, sob uma forte onda de aplausos, juntar-se a ela na mesa. Socorro fez uma breve apresentação de Marina, e disse a todos que estávamos tendo uma honra de poder assistir àquele momento. De fato, era mesmo ;)




Em um primeiro minuto, Socorro levantou a questão do hábito da leitura, tão em falta em nosso país. Marina comentou, enquanto era fustigada pelos flashes dos fotógrafos, que somente agora o país acorda para a necessidade da leitura. Disse ainda que não é um hábito que deve existir, mas sim um gosto, quase como uma necessidade, por ter sempre alguma leitura à mão. Já em suas primeiras palavras, percebi aquele ar de sabedoria e eloquência típico de todo escritor. Vinha aí mais uma aula pela frente!


Marina falou também sobre a importância do livro em si, de tudo o que ele tem a oferecer, inclusive tecendo críticas a respeito de como eles tendem a ser direcionados. A escritora ainda criticou o fato dos ganhadores do prêmio Jabuti infantil - um importante prêmio literário - nunca serem divulgados pela imprensa (pelo menos não adequadamente). Isso é realmente uma coisa engraçado, que sempre pensei a respeito. Nunca é muito divulgado nada referente a prêmios culturais. Nunca sabemos quem ganhou ou deixou de ganhar o Jabuti, e até o prêmio Nobel é um mistério. Claro, os que pesquisam e perguntam a ferramentas como o Google, têm a resposta em poucos segundos, mas nem todos têm essa facilidade, ou até esse interesse. E os grandes jornais televisivos? Por que não divulgam notícias como essa? Quem ganhou o Nobel de Literatura de 2009? Pouca gente deve saber, mas aposto que a maioria sabe a lista dos jogadores do Brasil a jogarem a Copa do Mundo ou o ganhador da noite do Oscar 2010. É realmente um fato curioso.


Voltando à palestra, Marina falou ainda da importância do ato de se contar histórias; como uma história pode chamar a atenção de um público já um pouco disperso, trazendo-o, chamando-o, quase como uma injeção de ânimo. Ela ainda abordou essa questão direcionando-se a um público infantil em geral.


A escritora ainda contou um pouco a respeito de sua rotina de trabalho, comentou sobre a estrutura dos contos de fada, diferenciando-os dos demais gêneros, e explicando como ele deve tocar quem o lê, independente de ser adulto ou criança. Falou ainda sobre Hans Christian Andersen, um famoso escritor de contos de fada que fez história em seu tempo, estando em foco até os dias de hoje, graças a histórias como O Patinho Feio, A Nova Roupa do Rei, A Pequena Sereia e A Princesa e a Ervilha. Para mim, que venho pesquisando vida e obra de Andersen, foi um prato cheio. Marina, já um pouco antes de iniciar-se o bloco de perguntas, contou uma história que fascinou a todos por alguns minutos, pela emoção e entonação inseridos por ela.





Marina Colasanti comentou, em certo ponto, que não difere sua maneira de escrever, seja para o público infantil ou o adulto. Isso de fato é bem evidente em seus livros voltados às crianças, onde vemos a mesma linguagem presente em suas demais obras. Marina comentou que algumas crianças às vezes não entendem certas palavras, e que é até possível ter uma noção do que fala o texto sem saber o significado de todas elas, mas que o ideal seria ter sempre um dicionário por perto, pois ajuda tanto para entender a história como para engrandecer o vocabulário. Sobre contos de fada, ela falou que caso um adulto não ache graça, não se emocione ao lê-los, é sinal que não leram um conto de fadas, cuja estrutura deve justamente dialogar tanto com uma criança como com um adulto.


Em muitos momentos, enquanto tentava segurar o celular fixamente, enquadrando a mesa, durante uma gravação, fui interceptado por alguns repórteres, que instalavam seu equipamento bem no meu ângulo de filmagem. A solução: levantei, e em pé ao lado da cadeira, continuei registrando, com o campo de visão aberto.


O espaço de perguntas não foi muito longo, pois a duração total da palestra era de apenas uma hora, mas foi suficiente para que algumas pessoas se manifestassem na plateia, que em geral parecia bastante interessada. Uma professora fez uma pergunta sobre o interesse das crianças nos livros, contando que ela tinha um aluno que certa vez lera um livro, As viagens de Gulliver, se não me engano, e questionara a ela se aquela história tinha de fato ocorrido. A professora respondeu que não, ao que a criança perguntou por que deveria se estudar sobre algo que não aconteceu. Marina Colasanti fez diversas observações quanto a esta colocação, lamentando primeiramente a criança encarar o livro como algo a ser estudado, da maneira como lhe é ensinado, quase que forçadamente.


Ela ainda desenvolveu bastante, focada nesse contexto, expondo argumentos para mudar essa visão, dizendo entre outras coisas que a fronteira entre o real e a fantasia é mais estreita do que imaginamos e, no caso da criança, que pode achar que não precisa ler um conto de fadas, porque este não aconteceu, mas certamente irá querer assistir a um filme do Homem-Aranha ou outro super herói qualquer, que na opinião de Marina, não deixam de também constituir exemplos de contos de fada. Muito interessante, de fato, acho que não costumamos pensar muito por essa ótica, ao assistirmos a filmes de heróis tipicamente impossíveis, como Super-Homem, X-Men, ou o recentemente adaptado Homem de Ferro.


Houve também uma enorme pergunta de um fã, que trazia um grande número de livros de Marina. Ele ocupou o microfone por alguns minutos, elogiando-a, enquanto formulava sua questão, que foi elegantemente respondida pela escritora. Agora, quase um mês passado, não me lembro exatamente do que se tratava (até cheguei a gravar, porém por algum infortúnio a gravação ficou totalmente sem som), mas tinha algo a ver com a maneira como ela traçava sua narrativa e sua literatura.


Então, ao final das perguntas, chegou também o fim da palestra, e a professora Socorro Acioli concluiu, agradecendo à presença de todos, principalmente a de Marina Colasanti, e esta foi intensamente aplaudida. Socorro falou ainda que Marina iria agora para o estande de alguma editora, onde daria autógrafos. O nome da editora até foi falado, mas por uma rápida desatenção, não ouvi direito. Tinha ouvido era algo que me lembrou editora Globo. Mas Marina Colasanti com livros editados pela editora Globo? Não... certamente ouvi errado.


Os vídeos a seguir contêm algumas das palavras da escritora, falando um pouco do que mencionei acima e outras tantas coisas. A acústica, como sempre, não está muito boa, e em alguns momentos não é possível ouvir muitas palavras, mas em outros dá para ouvir até muito bem (recomendo um fone de ouvido ou algo parecido), pois alguma coisa tinha de adiantar eu estar bem ao lado da caixa de som ;) .Os três últimos estão nitidamente inferiores, tanto em vídeo como em aúdio, por eu estar nos minutos finais da capacidade do celular, e ter tido que reduzir severamente a resolução, a fim de captar alguns minutos a mais:




Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; visão geral da arena - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; apresentação inicial - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 1 - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 2 - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 3 - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 4 - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 5 - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 6 - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 7 - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 8 - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 9- Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 10 - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 11 - Abril 2010





Marina Colasanti na Bienal do Livro do Ceará; trecho 12 - Abril 2010





Não entendi exatamente por que os autógrafos não foram dados ali mesmo, como tinham sido as palestras anteriores. Teria sido muito mais cômodo para todos, não há dúvidas. Talvez tenha sido alguma iniciativa da editora encarregada, para aumentar a circulação de pessoas em seu estande. Bom, de eu maneira ou de outra, eu ainda estava disposto a tentar conseguir o autógrafo de Marina, portanto procurei ver para qual estande ela seguiria.


A saída não foi tumultuada. Já estava com bastante fome àquela hora, mas no momento a prioridade era acompanhar o desfecho da participação de Marina Colasanti na Bienal. Estava acontecendo uma apresentação no espaço do cordel, no momento que Marina passou, junto com as muitas pessoas que saíam da arena. À medida que eu andava, lentamente, me desviando de todos, tentava mantê-la em vista, para saber onde era o tal estande. A multidão de pessoas que assistira à palestra começou a se dispersar pelos corredores da feira, até chegar o momento em que vi apenas Marina, e o fã que fizera a pergunta demorada, caminhando lado a lado. O rapaz parecia estar aproveitando bem o momento, e os dois conversavam enquanto seguiam para, pensava eu, ser o estande onde ela autografaria livros. Súbito, ambos pararam, e o fã seguiu pela entrada do bloco F, enquanto Marina adentrou uma passagem que parecia ser restrita, desaparecendo atrás de uma porta escura. Acabei não sabendo então onde era o estande, mas daria um jeito nisso logo.


Retornei às proximidades da arena Memorial de Maria Moura e perguntei a um dos receptivos que estavam por ali sobre o local onde Marina autografaria. A resposta foi direta: estande da editora Global, bloco F. Não era a Globo, afinal, embora pudesse confundir se falado rapidamente, como foi o caso. Fui direto para lá, o mais depressa que pude, uma vez que estava muito difícil de se locomover entre as dezenas de pessoas que havia a cada metro. Já no bloco F, procurei o estande nos corredores do bloco. Já tinha feito muitas compras naquela área da feira, mas não lembrava de ter visto nenhuma editora Global. Não demorei muito para achar, porém. Após me infiltrar pelos estandes no meio do bloco, vi logo uma filinha, que imaginei já ser para o autógrafo.


Comparado ao número de pessoas que tinham ido à palestra, a fila era pequena. Mas parecia composta de pessoas realmente interessadas. O estande não era de fato muito chamativo, mas com a presença de Marina Colasanti, tudo era diferente. Ela estava sentada a uma mesinha, recebendo muito gentilmente as pessoas. Quando cheguei, posicionei-me no final da fila, com umas 15 ou 20 pessoas à frente. Vi então que aquele mesmo fã de outrora estava nesse momento recebendo seu autógrafo. Paciente, e com uma fome maior que o mundo, só me restou esperar.


A fila podia ter poucas pessoas, é verdade, mas era tão vagarosa que lembrou até a fila do Maurício de Sousa. Percebi o motivo quando olhei na direção da mesinha onde Marina autografava: a pessoa da vez parecia que tinha esquecido de que havia uma fila. Não bastasse esse fã, que parecia estar acompanhado de sua namorada, ter demorado um bom tempo, os outros não deixaram de abusar; teve gente que conversou, pediu pra tirar foto, ainda conferiu se a foto tinha ficado boa (para tirar outra se não tivesse ficado, não é?) e não saía de perto da escritora. Os que estavam próximos a mim na fila também não escondiam sua indignação, criticando o comportamento daquelas pessoas, que abusavam da boa vontade de Marina. Já era perto das 19:00. Eu estava praticamente só com o almoço, há cerca de 7 horas atrás. Emendar as palestras de Maurício e Marina talvez tenha sido uma atitude um tanto impensada, mas era a única maneira de poder assisti-las. O que causou o transtorno mesmo foi o café estar interditado na hora que deveria ter sido destinada ao lanche.


Fiquei ainda bons minutos na fila, com o livro na mão. Na mesa, Marina continuava distribuindo sorrisos e autógrafos. O desgaste então começou a pesar de verdade, à medida que o tempo passava e eu não parecia sair do lugar. Essa situação me lembrou bastante dos momentos bem similares que enfrentei nos dias de Ziraldo e Pedro Bandeira. A vontade de ter o autógrafo, e sobretudo poder trocar algumas palavras com Marina era intensa, mas ao mesmo tempo também estava bastante inclinado a deixar aquela fila e retornar ao café, que possivelmente já havia sido liberado àquela hora. Comecei a pensar, que por conta de todo aquele alvoroço, aliado ao meu estado já exaurido, não conseguiria dizer à Marina metade do que gostaria. Claro, de uma maneira ou de outra seria isso seria impossível, pois aquele momento exigia agilidade, não se podia demorar (embora ninguém respeitasse isso) e mesmo que eu seguisse essa lei já não sabia mais o que dizer exatamente. Após refletir essas questões mais alguns minutos, decidi enfim deixar a fila, que ainda tinha umas 10 pessoas. É evidente que saí com um certo desapontamento, mas nada que abalasse o balanço geral do dia, o último dia da Bienal, no qual pude assistir à boa palestra de Maurício de Sousa e à maravilhosa de Marina Colasanti.


Saindo do estande da editora global, voltei mesmo ao café, pois não pretendia ir para casa ainda. Ainda teria mais algumas horinhas para dar uma última olhada nos estandes, antes de o evento se encerrar, mas é claro que só faria isso após um bom lanche. Como imaginei, encontrei as portas do café enfim desobstruídas, com o movimento normal, ou seja, mesas lotadas e fila enorme no caixa. Não tinha muito o que fazer, então esperei. Após mais uns minutinhos, eu enfim me deliciava com os lanches do café, enquanto observava o vaivém nervoso das pessoas, pela porta.


Em seguida, antes de me despedir da nona edição da feira, ainda tinha uns livros a comprar que tinha deixado para última hora. Tinha trazido uma folhinha de papel, com os nomes e estandes, para facilitar a localização. Mas não foi fácil. Mal conseguia me orientar naquela hora. Absolutamente todos os estandes transbordavam de pessoas. Todos lutando por espaço. Centenas de vozes confusas entrecortadas. Pés que caminhavam hesitantes, tentando ver por onde poderiam seguir. Foi mais ou menos assim minha travessia entre os estandes que pretendia ir. O que mais me surpreendeu foi que mesmo assim o número de pessoas que traziam alguma sacola à mão ainda era muito reduzido. Tudo bem, era bem mais significante do que os primeiros dias, mas estava longe de ser um nível adequado, imagino. E olha que nesse último dia de evento, praticamente todos os estandes fizeram promoções muito boas, reduzindo ainda mais preços já anunciados como ofertas. Depois fiquei sabendo que houve gente que reclamou de muitos preços, dizendo serem tão ou mais caros do que as livrarias. É, um ou outro talvez, mas no geral a Bienal estava recheada de todas as opções de leituras, para todos os gostos. Era só procurar, mas, infelizmente, isso de fato não era tão fácil, pois achei alguns estandes muito bagunçados, como um que tinha centenas de livros disponíves, a R$10,00 cada, se não me engano, mas sem qualquer organização por tema. Vai saber se um livro que possa lhe interessar pode estar mergulhado entre aqueles? Como adivinhar que um que você busca há tempos pode estar ao lado de livros que você sequer olharia? Era um verdadeiro teste à paciência.


Bom, mas como eu já tinha um direcionamento, foi apenas questão de me infiltrar nas multidões, para conseguir adentrar os estandes desejados. Alguns, porém, estavam tão cheios que era até difícil procurar, e sem muito êxito, abri mão de algumas compras prováveis. Terminei por escolher alguns livros de Ziraldo e outros variados, aproveitando uma ótima promoção de leve 3 por R$10,00. E assim, por volta das 20:30, enfim saí do Centro de Convenções, levando várias sacolas e também já uma certa saudade de tudo aquilo, de toda aquela intensidade, de todo aquele caos, que de uma maneira ou de outra só me trouxe benefícios. Pensei num lampejo em tudo que tinha podido assistir, observar, comprar, enquanto atravessava a porta de saída, deixando os corredores nervosos para trás. A calmaria e o silêncio das ruas foi um bálsamo.


Falando um pouco sobre a palestra, afirmo sem qualquer receio que Marina Colasanti foi um dos grandes momentos da Bienal do Livro do Ceará. Quanta sabedoria! Quanta articulação! Suas palavras, falando sobre contos de fada, um gênero pelo qual comecei a me interessar bastante nos últimos dias, me foram de imenso aproveitamento, quase como me indicando o caminho a seguir. Seus comentários sobre o real valor do livro, e de como levá-lo a um número cada vez maior de pessoas também foram bastante incisivos, deixando a ideia de que o ato, ou hábito de ler, não deve ser feito por obrigação, mas por prazer, por necessidade, tão quanto necessitamos respirar para viver. A professora Socorro Acioli também teve uma ótima participação, pontuando e comentando sobre os diversos assuntos decorrentes do tema principal. A acústica na arena estava boa, o que garantiu uma melhor captação dos vídeos que fiz. Infelizmente, dada a péssima distrubuição de cadeiras, não pude tirar boas fotos. Também não fiz qualquer registro do momento da fila para o autógrafo, mas acredito que minha descrição já passe uma ideia geral de como tenha sido. No geral, foi um excelente momento, para fechar a Bienal em grande estilo. O único "problema" foi a curta duração, de apenas uma hora! Mas por ter sido tão brilhantemente conduzida, a conversa pareceu ter durado bem mais do isso, afinal. Como disse Socorro, logo no início da palestra, foi realmente uma oportunidade de ouro, um momento a ser guardado na memória para sempre.




E aqui encerro esta postagem, já a poucos passos de concluir a série sobre minhas impressões da Bienal. Lá se foram sete postagens. Ufa, deu um trabalho bem maior do que eu imaginei a princípio, mas foi preciso, para atingir o ideal que planejei logo que terminou a Bienal e comecei a escrever a primeira destas postagens. Mas não pensem que já vou terminar por aqui! Na próxima postagem, a conclusão, em linhas gerais. Um balanço geral de tudo o que venho comentado por aqui no último mês. Daqui a alguns dias, aqui no Diálogos Visuais ;)

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