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"Todos temos coisas na vida que valem a pena ser contadas, escritas. Mesmo que não para publicar, escreva-as para a família."Ilko Minev



quarta-feira, 28 de abril de 2010

Bienal do Livro 2010: minhas impressões (V- Pedro Bandeira)

Antes de mais nada, essa é mais uma postagem bem extensa, a maior do Blog, e foi talvez a mais trabalhosa que já fiz até agora, então peço que tenham paciência! Outro detalhe: a data da postagem está como 28 de Abril, mas na verdade esse foi o dia que comecei a inserir as fotos. O texto só foi finalizado e postado na madrugada de 1º de Maio, tendo sido iniciado em 27 de Abril ;)

Terminei a postagem anterior dizendo que falaria agora sobre as duas palestras concedidas pelo escritor Pedro Bandeira na Bienal Internacional do Livro do Ceará 2010. Isso mesmo, duas. Na verdade, a primeira foi mais um momento, uma conversa, do que uma palestra propriamente dita, mas para mim ambas foram de imenso aproveitamento.

O dia de Pedro Bandeira na Bienal seria no sábado, dia 17 de abril. O primeiro horário seria das 15:00 às 16:00. Em seguida, das 16:30 às 18:00, Pedro Bandeira faria sua segunda aparição, para o maior público que já vi nesta Bienal, até então.

Pedro Bandeira é o autor de literatura juvenil mais vendido do país. Sempre fui um grande admirador de sua obra, desde os tempos de escola, onde fui apresentado ao grupo Os Karas, através de ótimos livros, como A droga da obediência e A droga do amor, obras que despertam facilmente para o fascinante mundo da leitura. De uns tempos para cá, acabei enveredando por outros autores, outras obras, mas sempre olho com carinho para os livros dele que tenho aqui na minha estante, esperando apenas uma chance para relê-los .

Como já falei em postagens anteriores, comecei a me reaproximar mais de Pedro Bandeira através de uma entrevista dada por ele a Ziraldo, no programa ABZ do Ziraldo. Na ocasião, Pedro falou principalmente sobre o livro O fantástico mistério de Feiurinha, seu livro mais vendido até hoje, contando um pouco sobre o enredo e premissa do livro. Ouvir as palavras animadas e eufóricas dele, enquanto falava da história, me deixou bastante curioso para ler o livro, que até o momento não tinha tido a oportunidade.

Aliás, um dia antes das palestras, na noite de sexta-feria, fiz esse favor a mim mesmo, e comecei a ler o livro (uma antiga edição, que havia sido um paradidático usado por meu irmão, na época do colégio). Imaginei que certamente grande parte do assunto das palestras giraria em torno da Feiurinha, também pela sua recente adaptação para o cinema - em um filme da Xuxa - por isso quis estar um pouco mais ciente da história antes da palestra. Nessa madrugada li quase a metade do livro, suficiente para de fato começar a sentir a força que tem a narrativa. Falarei mais sobre ele numa postagem futura.

Voltando ao assunto principal, cheguei ao Centro de Convenções mais ou menos às 14:15 do sábado. Sabia que certamente o movimento seria maior que qualquer outra palestra, por duas razões: a presença de Pedro Bandeira e em pleno final de semana, (os dias finais da Bienal). Logo à entrada, já percebi uma movimentação totalmente diferente dos dias anteriores. Vi dezenas de pessoas transitando com camisas verde-escuras; uma espécie de farda de algum projeto do governo, como dizia o emblema nas costas de cada uma. Esses novos visitantes tornaram o acesso aos pavilhões mais difícil do que nunca, e fui constantemente bloqueado por essa massa verde que
ocupava boa parte da passagem. Imaginei que decerto iam participar de alguma programação. E de fato foram. Só não imaginei que seria a programação.

A Conversa com Pedro Bandeira, primeira aparição do escritor nesta Bienal, aconteceria em um espaço que eu ainda não tinha visitado, a arena infantil O Menino Mágico, localizada no piso superior a um dos pavilhões centrais. Lá, pelo que eu já havia lido, era onde eram realizadas as oficinas voltadas às crianças, com atividades como produção de texto, origami, fantoches etc.

Imaginei que por ser no espaço infantil, não haveria muita gente, que certamente lotaria apenas a palestra oficialmente dita, por isso visitei alguns estandes do bloco abaixo da arena infantil, que já conhecia tão bem, para comprar alguns livros de última hora, pois o dia seguinte, domingo, seria o último dia da Bienal. Acabei me distraindo mais do que deveria, e também a confusão para andar nos estandes era tanta que acabei só me dirigindo à arena lá pelas 14:40.

Saindo por um caminho que até então eu só vira de longe, cheguei a uma enorme rampa, que serpenteava toda uma nova área, onde estava montado, ao ar livre, um estande do jornal Diário do Nordeste. Subi por ela com certa pressa. Lá em cima, uma nova entrada, que conduzia a um grande espaço, onde havia vários nichos, local das atividades ali realizadas. No centro, quase uma réplica da arena Memorial de Maria Moura, a não ser pela ausência das cadeiras.


Duas arquibancadas, almofadões espalhados pelo chão, e mini palco. E o balcão que vendia livros do escritor convidado? ficou de fora? Não! Lá estava ele, em uma lateral de uma arquibancada. Me aproximei, conhecendo o ambiente. O movimento de pessoas já era enorme, e as arquibancadas começaram a se encher rapidamente, uma vez que os almofadões já estavam ocupados. Tomei lugar logo em um canto, no alto de uma das arquibancadas, onde ainda estava tranquilo. De lá, teria uma boa visão panorâmica do lugar, que ajudaria no registro em vídeo que eu viria a fazer.

Uma vez sentado, fiz algumas fotos e contemplei o ambiente, que mergulhava num vozerio contínuo de dezenas de pessoas juntas. No mini palco, a mesa exibia vários livros dispostos em pé, e ao lado dela havia um cartaz com uma foto de Pedro bandeira. Do meu ponto de vista, podia ver o balcão que vendia os livros, que estava bem embaixo de mim. Àquela hora, muita gente já se aglomerava à sua volta, disposta a comprar o melhor de Pedro Bandeira.






Então, após alguns minutos, e feitas as apresentações de praxe da Bienal, Pedro Bandeira foi chamado. Quando o escritor se fez presente, aplausos calorosos explodiram de todas as direções, a vibração foi intensa. Em seguida, se sentou à mesa. Ele pode até ter se sentado à mesa, mas não passou nem um minuto sequer nela, levantando-se rapidamente, dizendo que não gosta nem um pouco de ficar sentando muito tempo.



Pedro Bandeira iniciou falando do quão considerava a Bienal do Ceará, da sua importância no cenário literário nacional, e do quanto a admirava. Comentou de sua satisfação de estar presente em mais uma edição, falou ainda que daria autógrafos (só para quem tem livro!) e logo em seguida já pegou um segundo microfone, pedindo a uma receptiva que iniciasse a sessão de perguntas. Percebi então que este primeiro encontro seria mais breve do que imaginei.

Começaram então as perguntas. Algumas crianças perguntaram sobre Feiurinha, como eu suspeitava, e outras sobre a série Os Karas - e tudo rendeu rápidas e precisas respostas de Pedro Bandeira. Esses dois temas acabaram sendo os maiores destaques, como não poderia deixar de ser. Em certo momento, porém, veio uma pergunta, aliás, uma pequena curiosidade, de um senhor lá no meio de uma massa de pessoas. Ele disse também ser da família Bandeira, e começou a falar um pouco sobre a origem desta família, questionando o escritor a respeito desta resposta. Parece que Pedro Bandeira achou, sem uma razão muito aparente, que o senhor o estava confundido com um outro Pedro Bandeira, que é poeta e cordelista aqui no Ceará, e de certa forma ignorou um pouco as palavras do senhor, que não se deixou intimidar e continuou, contando a todos os presentes, inclusive o próprio Pedro Bandeira, a origem de sua família. Após falar por alguns minutos, e contar de maneira breve esta curiosa história, o senhor foi bem aplaudido, mas não obteve mais nenhum comentário de Pedro Bandeira, que após os aplausos já procurava com a mão a próxima pessoa a perguntar. Não achei uma atitude muito polida de sua parte, sem dúvida. Ora, o senhor foi tão educado, tão claro, mas em alguns momentos Bandeira parecia estar ouvindo suas palavras sem muita atenção. Mesmo que ele o estivesse confundido, não era afinal o mesmo sobrenome? que diferença faz se ele conheceu um Bandeira aqui do Ceará, ou um de São Paulo? a origem do nome é a mesma. Não sei se estou sendo muito critíco, mas acho que Pedro Bandeira deveria ter comentado algo acerca de tudo o que o senhor falou, até por educação, e agradecê-lo, pois não é qualquer um que levantaria uma questão dessas e passaria quase dois minutos falando ao microfone diante de dezenas de pessoas.

Agora aos vídeos, trechos do que foi a conversa, com boa parte do que eu falei acima:


Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 1; trecho 1 - Abril 2010




Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 1; trecho 2 - Abril 2010




Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 1; trecho 3 - Abril 2010




Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 1; trecho 4 - Abril 2010




Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 1; trecho 5 - Abril 2010




Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 1; trecho 6 - Abril 2010




Com meia hora para o final da conversa, findadas as perguntas, iniciou-se a distribuição de autógrafos, e de maneira bem similar a como foi com Ziraldo, em poucos segundos se formou uma gigantesca fila. Desta vez, porém, não havia distinção de fila para crianças ou adultos. Todos se aglomeraram no meio da arena, enquanto Pedro Bandeira enfim sentou-se à mesa, pondo os óculos e começando a atender os fãs, que levavam seus livros e suas emoções para junto do escritor.

Eu tinha levado meus exemplares de A droga da obediência e O Fantástico mistério de Feiurinha. O segundo acabou vindo meio de gaiato, pois eu estava lendo na época, mas caso conseguisse o autógrafo, tinha de ser no primeiro, que significava bem mais para mim. Mas, hoje em dia, já tendo lido Feiurinha, poderia facilmente ter querido o autógrafo nele, pois é mesmo um livro fantástico.

Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará; formação da fila para autógrafo:




O fato é que não corri para tentar encontrar o fim da fila, pois na hora que uns estavam lá, lutando para que Pedro bandeira assinasse seu nome em seus livros, e outros tantos ainda compravam os livros a serem autografados (o balcão a essa hora fervilhava), eu começava a refletir um pouco sobre o significado de tudo aquilo.

Olhei para o balcão, para as pessoas que comercializavam os livros. Uns ávidos para vender, outros para comprar. Caixas e mais caixas da editora moderna jaziam ao chão. Comecei a pensar que a maioria daqueles livros tinha sido escrito há algum tempo, e que a procura por eles continuava intensa. Mas, seria mesmo? Ou seria apenas por causa da presença do autor? Será que todos que compravam aqueles livros realmente iriam lê-los? ou seria só pelo autógrafo? Não sei, mas o fato é que os livros ali estavam bem caros, a um preço bem acima da média até de uma livraria. Aliás, acho que o valor mais alto se deve à nova "roupagem" que foram aplicadas às novas edições dos livros.



Enquanto via as muitas mãos pegando livros, entregando cédulas, passando cartões de crédito, comecei a pensar também como é interessante essa parte do trabalho do escritor: criar histórias, mundos, universos, que dialogam com os leitores, que deixam de ser meras ideias para se tornar algo sólido, algo verossímil. Quando textos se tornam vivos e passam e ser comercializados como qualquer outra coisa, às vezes por pequenas fortunas. E, como qualquer obra de arte, trazem consigo um pouco da vida de seu autor. Essas reflexões me fizeram entender aquele momento de uma maneira mais profunda, que talvez tivesse passado batido pelos que só estavam interessados em comprar livros e tê-los autografados.

Não que eu não quisesse o autógrafo, claro, tinha até levado os livros, mas eu queria mesmo era poder conversar com Pedro Bandeira com uma certa calma, sem essa coisa de "autógrafo, aperto de mão, e venha o próximo!", da mesma forma que gostaria que tivesse sido com Ziraldo. Como sabia que por enquanto isso estava bem fora de questão, não me animei muito para ir ao final da fila, que era só agitação, enquanto o escritor seguia autografando livro após livro. Pensei que, como haveria uma segunda palestra, talvez fosse mais fácil de se conseguir o autógrafo, pois grande parte deste público provavelmente não a assistiria.

Então desci da arquibancada e fui dar uma olhada no espaço onde seus livros estavam sendo vendidos. Tive um certo espanto ao ver as novas edições dos livros da série Os Karas, nitidamente mais grossos e robustos que as edições anteriores. O acabamento das novas capas é fraco e inexpressivo, muito abaixo do nível que livros tão bons como estes mereceriam. Boas mesmo eram as capas das primeiras edições, que tinham um aspecto quase assustador, e que já começavam a fisgar a atenção a partir daí. Curioso para ver como um livro de 150 páginas pode chegar àquela grossura, peguei um novo exemplar de A droga da obediência e comecei a folhear, quase comparando com a minha edição. Rapidamente, notei a grande diferença: o espaçamento entre as linhas aumentara, o suficiente para crescer o livro umas 40 páginas. Não sei ao certo o porquê dessa medida, ou a razão das capas terem ficado tão sem vida, mas o fato é que visto de longe fica parecendo quase um livro do Harry Potter ;)

Sendo assim, voltei ao espaço central, próximo à fila e fiz algumas fotos, tentando me aproximar o máximo possível da mesa, que era protegida por pessoas da organização da Bienal, além do seguranças com caras de poucos amigos. Ainda lutei por espaço entre as muitas lentes de pessoas que tentavam o mesmo. Abaixo, várias das muitas fotos que consegui nessa empreitada:














Quando encerrei as fotos, já passava das 16h. Pedro Bandeira tinha a segunda palestra programada para as 16:30, em outro auditório, mas a fila - ainda enorme - parecia indicar que ele se atrasaria alguns minutinhos. Deixei então o espaço O Menino Mágico, passando mais uma vez em frente ao balcão de livros, que estavam começando a ser guardados nas caixas para, possivelmente, serem levados ao local da segunda palestra.

Lá fora, eu sabia que não teria muito tempo para outra coisa senão ir direto à arena Memorial de Maria Moura, onde aconteceria o Encontro com o Escritor, que traria novamente Pedro Bandeira ao público, então fui o mais depressa que pude - e que me deixaram ir, pois os pavilhões estavam completamente lotados, e tive que abrir caminho entre o mar de pessoas.

Chegando ao pavilhão A, o principal, emendei pelo espaço do cordel, onde àquela hora acontecia uma apresentação bastante barulhenta, e me deparei com uma fila considerável, exatamente no mesmo local onde há três dias atrás eu esperava para ver a palestra de Ziraldo. Projetei-me para o final com passadas largas, e consegui um lugar não muito bom, mas pelo menos não tinha o caixa eletrônico ao meu lado.

Quando me juntei à fila, vi que já havia pessoas entrando, mas parecia ser uma entrada controlada, pois alguns seguranças abriam e fechavam as portas de vidro após uma certa contagem de pessoas. Um receptivo passou pela fila, confirmando que seria a palestra de Pedro Bandeira, caso alguém ali não soubesse de que se tratava (o que parecia difícil de acontecer) e então todos foram avançando. Mais à frente, vi exatamente como funcionava o mecanismo de entrada: não havia senhas, mas a entrada era liberada a apenas 25 pessoas por vez. Os próprios seguranças se encarregavam da contagem. Devo ter sido o número 18 de meu grupo, e assim que entrei, me dirigi com certa pressa para o centro da arena, passando pelo pessoal da organização da Bienal, que arrumava o balcão com os livros que tinham sobrado da primeira apresentação. Diante de uma nova disposição de assentos, levei um grande susto.

Havia uma imensidão de cadeiras dispostas por toda a extensão da arena, todas já ocupadas. Dessa vez, não havia lugar para os almofadões. E até mesmo as arquibancadas já se mostravam incrivelmente lotadas, de modo que só pude encontrar um local no primeiro degrau de uma delas; um péssimo lugar, pois ficava à altura das muitas cabeças dos que estavam à frente, sentados nas cadeiras. Uma vez acomodado, neste estreito e apertado espaço, olhei um pouco à volta, reparando muitas pessoas com aquelas camisas verdes que vira lá no início. Além da camisa, outro detalhe me chamou a atenção: curiosas pulseiras coloridas em seus pulsos, talvez algum tipo de identificação ou brinde de alguma promoção. Eram os Agentes de Leitura do Ceará, e tinham vindo especialmente para esta palestra, como eu descobriria no decorrer desta.





Este foi sem dúvida o maior público que vi na Bienal, devia haver quase 500 pessoas na arena, e eu sabia que também seria a maior gritaria do evento, na hora que Pedro Bandeira fosse apresentado. Rapidamente, a extensão ao meu lado do degrau da arquibancada foi preenchida pelos que ainda chegavam e às 16:30 a arena já estava praticamente lotada. Lembrando que quem saísse do local não poderia mais voltar, pois o lugar já seria ocupado por uma nova pessoa lá de fora.

As muitas pessoas já começavam a preparar suas câmeras, no momento que se iniciava as apresentações formais do evento. Quando o nome de Pedro Bandeira foi anunciado, e o escritor surgiu, com um sorriso no rosto, o público estourou numa grande algazarra, gritando e aplaudindo furiosamente.

Pedro Bandeira sentou-se brevemente à mesa, junto com o escritor local e membro da organização da Bienal, Raymundo Netto, que fez uma breve apresentação do convidado, citando prêmios recebidos e obras importantes de sua autoria. A simples menção do nome Os Karas, ou A droga da obediência fez eclodir uma nova euforia no público, que reagia com berros ensurdecedores.

A palavra enfim foi passada ao escritor, que ergueu-se da cadeira de imediato e cumprimentou a todos. Inicialmente, ele começou descontraindo e empolgando o público, contando uma história bem curiosa e edificante. De onde eu estava sentado, via Pedro Bandeira, gesticulando e interpretando as diferentes caras dos personagens da história, misturado às muitas cabeças que emergiam à minha frente, além das incontáveis telinhas coloridas nas mãos erguidas para o alto, que mostravam miniaturas do que se passava no palco.

Em seguida, ele falou um pouco sobre a importância da linguagem e da palavra escrita, e afirmou que a tecnologia não reterá a leitura, apenas a apressará. Pelo que pude entender desta parte da palestra, Pedro Bandeira não é necessariamente contra os vícios de linguagem que se encontram em qualquer esquina da internet, pois queira ou não, eles constituem um tipo de linguagem. Ele ainda comentou as muitas diferenças entre o que se tem hoje, em termos de comunicação, em relação ao que se tinha tempos atrás.

De repente, a palestra foi seriamente abalada por um alto ruído de vozes, mas que desta vez não vinham da arena, e sim de fora dela. Era no cordel. Alguma apresentação bastante ruidosa chegava muito aos ouvidos de todos, e duelavam com as igualmente sonoras palavras de Pedro Bandeira, o que resultava numa grande confusão de sons. A solução veio rapidamente, quando alguém lembrou de fechar as portas de vidro que separavam as duas áreas.



Retomada a ordem, a palestra se seguiu. Neste segundo momento, não houve muito espaço para Os Karas, e menos ainda para Feiurinha, pois o foco da conversa era outro. Pedro Bandeira se direcionava para a incentivação da leitura, explicando os principais problemas pelos quais nossa país passa a esse respeito, e apontando possíveis soluções. Ele adquiriu outra postura, e foi quase um professor, nos dando uma aula sobre muitos temas relacionados à importância da leitura, comentando muitos fatos históricos, e valorizando a postura do Brasil ante o mundo.

Sem dúvida, eram assuntos bem interessantes, mas nem todos pensavam desta forma, e após algum tempo falando, já notei rostos desanimados e cansados à minha volta. Claro, a maioria permanecia atenta, com olhos fixos em Pedro Bandeira, que ia de um lado para o outro, no decorrer de suas palavras, mas já havia um certo enfado em algumas pessoas. Inclusive, um fato curioso, se deu na hora em que Pedro Bandeira elogiou o trabalho dos Agentes de Leitura, enfatizando a importância deles para um aumento significativo de leitores no estado e no país. Pois bem, enquanto ele falava, não pude deixar de notar um dos Agentes, sentado não muito distante de mim, que parecia visivelmente saturado com aquilo tudo, e tinha até apoiado a cabeça no encosto da cadeira da frente, onde devia estar tentando tirar um cochilo. De vez em quando, levantava, olhava em volta, depois para o palco e se abanava com o que parecia ser um guia de atividades comuns aos Agentes, tão verde como o de sua camisa, mas já um pouco amassado. Em seguida, ele baixava novamente a cabeça. Puxa, achei que o pomposo título de Agente de Leitura fosse dado a quem tivesse mais aproximação, ou pelo menos mais interesse em momentos como aquele. Não é todo dia que se tem um escritor consagrado elogiando você e o seu grupo, o mínimo que se deveria dar em troca é um pouco de sua atenção, não é? Comecei a imaginar como seria aquela pessoa exercendo o seu trabalho de Agente. Será que ela afinal gostava e se interessava pela leitura? como uma pessoa pode incentivar e facilitar outras a ler se não parte dela uma vontade natural?

Mas, como já disse a escritora Marina Colasanti, nada como uma boa história para puxar e chamar de volta uma atenção perdida. E foi só Pedro Bandeira começar a contar uma história de Pedro Malasartes que em segundos todos, inclusive o Agente distraído , já estavam mais atentos do que nunca, ouvindo com máximo de interesse as instigantes palavras que o escritor falava, mais uma vez usando a voz em várias entonações.

Os vídeos abaixo expressam muita coisa que falei aqui, e outras tantas mais. A qualidade está visivelmente pior, se comparados aos das postagens anteriores, pois desta vez tive que usar um zoom maior, por estar um bocado longe do palco ;) Não chega a ser um grande empecilho, já que o áudio está até muito bom dadas as circunstâncias.


Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 2; trecho 1 - Abril 2010




Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 2; trecho 2 - Abril 2010




Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 2; trecho 3 - Abril 2010




Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 2; trecho 4 - Abril 2010




Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 2; trecho 5 - Abril 2010




Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 2; trecho 6 - Abril 2010




Pedro Bandeira na Bienal do Livro do Ceará, palestra 2; trecho 7 - Abril 2010




Como podem ver neste último vídeo acima, Pedro Bandeira finalizou sua participação na Bienal contando de maneira bastante peculiar uma história de Pedro Malasartes, deixando o público interagir no desfecho, em partes bem sugestivas ;) A história reacendeu a chama da plateia, que aplaudiu tão vivamente como no primeiro instante que o escritor adentrou a arena.

Então veio a notícia. Pedro Bandeira não daria autógrafos nesta segunda vez. O público ficou bastante desapontado. Mas era meio óbvio, pois caso se permitisse a formação de uma nova fila, o escritor só sairia dali no dia seguinte! Também não gostei a princípio, pois imaginava ainda poder falar algo para ele e pegar o autógrafo em um de meus livros, mas quando pensei depois na provável gigantesca fila que teria de enfrentar, me lembrei de imediato do dia da palestra de Ziraldo. Aquelas pessoas ali poderiam facilmente fazer uma fila três ou quatro vezes maior do que naquele dia, e não seria uma situação nada agradável de se enfrentar, considerando que já fazia umas quatro horas que eu estava na Bienal, sem ter podido ainda comer alguma coisa que não fosse um saquinho de pipocas. Sendo assim, até achei uma boa ideia não haver sessão de autógrafos.

Mas o público em geral pelo visto não achou, pois tão logo Pedro Bandeira soltou o microfone, uma multidão se projetou na direção da mesa, de maneira mais ou menos controlada. Não sei se conseguiram autógrafos, fotos, ou o que mais poderiam querer, mas o fato é que alguns segundos passados já não vi mais o escritor no meu campo de visão. Uma massa de pessoas se aglomerava em volta de onde eu achava que ele devia estar. Mal cheguei a vê-lo sair da arena, mas vi que a massa começou a se deslocar, descendo do mini palco e andando em direção à saída, no que deduzi que Pedro Bandeira já estava indo embora. A movimentação toda ficou ainda mais confusa, pois bem nessa hora os Agentes de Leitura começaram a se organizar em grupos através das cores de suas pulseiras - vai saber para quê - e nessa operação ocuparam boa parte do espaço das arquibancadas, onde eu ainda estava, tentando ver onde tinha ido parar Pedro Bandeira. Ainda saí depressa para perto das portas de vidro, desviando de várias pessoas no caminho, mas já era tarde demais, ele já havia desaparecido no meio da multidão que se espremia para sair. E era exatamente isso que veria quem estivesse do outro lado da porta nesse momento: um bolo de pessoas lutando para passar pelas estreitas portinhas envidraçadas. Lembrei-me nesse instante da palestra de Moacir Costa Lopes, tão calma e tranquila! Tinha até conseguido falar com ele sem grandes dificuldades ;)

Aparentemente, ainda haveria alguma apresentação na arena, que não deveria interessar a nenhum dos presentes, uma vez que praticamente todos convergiam para a saída. Não perdi tempo, após constatar a badalada saída de Pedro Bandeira, fiz o que pude para sair do local o quanto antes. Sequer pude olhar para o balcão de livros, para ver se tinham vendido muitos, pois para onde olhava só via pessoas e mais pessoas. E o cordel nessa hora voltou a inundar as proximidades com sonoro vocal de seus repentistas.

Quando enfim me vi do lado de fora, tomei logo o rumo do Café Literário, onde pude recarregar um pouco as energias, me deliciando com um bom café com leite e um calzone. Após o lanche, eu ainda andaria por mais alguns estandes, onde aproveitaria excelentes promoções, como o leve 3 pague 2, nos livros da editora BestBolso, no estande da Nobel, sem dúvida um dos destaques para mim na Bienal ;)

E isso foi tudo o que pude presenciar no agitado sábado, 17 de abril, penúltima dia de Bienal. Tive uma ótima impressão de Pedro Bandeira, ao conhecer melhor sua carreira, obras e ideias. O quão ele é querido pelo público é de impressionar, considerando que em nosso país não se vê muito destaque a escritores na mídia. Muita gente deve ter assistido a apenas uma das palestras, outros certamente foram para as duas, como eu, que quis aproveitar ao máximo esse momento. E aqui entra o que eu disse na postagem do Ziraldo, quando vemos de perto alguém cujo trabalho admiramos, é uma sensação engraçada, como se esse alguém não "existisse" antes de interagir no mesmo espaço que nós, como se habitasse um mundo quase inatingível. Então, vemos que não há nada de místico nisso, e que da mesma forma que ele lutou para chegar aonde chegou, você também pode fazer o mesmo, se assim quiser.

Minha intenção foi aproveitar suas palavras como referência, e elas de fato me revelaram e despertaram para caminhos bem interessantes. Sempre gostei de observar; lugares e pessoas, objetos e comportamentos. Além de todos os sentimentos e emoções envolvidos, também foi uma experiência muito satisfatória vivenciar o ambiente em si, a maneira como a Bienal se portou para receber o escritor. A disposição de tudo, a euforia dos fãs, os antes desconhecidos Agentes de Leitura , os sisudos seguranças, os receptivos que quase não ligavam para as palavras de Pedro Bandeira, mas que riram claramente na hora que ele contou a história, e a própria tranquilidade do escritor diante de tantas pessoas; todos esses elementos me transformaram visivelmente, fazendo-me refletir mais sobre quem sou e aonde quero chegar, e eu sem dúvida não teria como imaginar que essas palestras pudessem ter esse efeito. Esse foi o maior ganho que tive neste dia (mas também em toda a Bienal), mesmo não podendo conversar com Pedro Bandeira, Ziraldo...


Ufa, vou terminando esse texto por aqui. Já falei o nome Pedro Bandeira exatamente 60 vezes! Acho que já está de bom tamanho, não é? ;) Bom, a próxima postagem, já na reta final desta série, será sobre Maurício de Sousa, que agitou o último dia da Bienal.

4 comentários:

  1. Olá, gostei muito desse texto. Trouxe alguns questionamentos bem interessantes. E como eu estava lá também, nas duas palestras, posso dar também meu depoimento. Ah, eu sou a moça robusta de amarelo (estou até numa foto de destaque).

    Primeiro queria dizer que a primeira vez que conheci Pedro Bandeira foi aos 12. Não pessoalmente, mas com essa idade li A marca de uma lágrima. Uma semana depois lia a Droga da obediência e nunca mais deixaria de ler, pelo menos uma vez por ano, um livro do Pedro.

    Também fiquei muito triste em não poder conversar com ele, dizer o quanto ele me tocou na minha adolescência e o quanto ele tinha me influenciado na minha escolha profissional. Sou escritora hoje e digo, sem problema algum, que ele teve um grande peso nessa escolha.

    Também me questionei se todas aquelas pessoas leriam aqueles livros. Se todas elas não estariam apenas eufóricas com a presença do escritor ali. Se Pedro teria cativado cada uma delas como fez comigo.

    Mas não achei que ele foi rude com o homem que explicava o nome da família. Não era o momento mesmo. Mas enfim... agora é tarde e Inês é morta.

    Agora raiva mesmo eu tive na palestra. Primeiro que, como estava na fila tentando abraçar timidamente meu mestre, demorei a chegar no outro pavilhão, e ao chegar o encontrei lotado. Ainda vejo os tais Agentes de Leitura não dar valor ao que tem na frente? Absurdo! Me indignei. O mestre explicando como nosso país se transformou e nos falando da importância da leitura e as pessoas conversando, coxixando, pensando na morte da bezerra?

    Repensei minha escolha. Era isso que me esperava enquanto escritora? Adoração pelo meu autógrafo e desinteresse pelas minhas palavras? Ouvindo meu mestre ali meus olhos se encheram de lágrimas. Na verdade se encheram desde o primeiro momento. Meu mestre estava há alguns metros de mim e eu não podia chegar perto. Não poderíamos conversar. Pensei então em tudo que eu alcancei graças aos livros que li. Tudo o que aprendi. Tudo que me emocionou e me cativou.

    Foi então que tive a certeza de que estava na carreira certa. Não importa se tem 500 pessoas na plateia. O importante é se duas delas estão emocionadas. Pra mim não importa os autógrafos. Importa emocionar e inspirar pessoas. E que depois de 13 anos elas ainda acreditem que as palavras libertam. E que elas, as palavras, tem o maior poder do mundo.

    Desculpe se ao escrever isso tudo tomei muito do seu tempo. Escritores são assim, divagam por capricho. Um grande abraço pra você.

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  2. Olá Amélia! Desculpe não ter respondido logo, mas como tenho estado mais focado nos textos do Anima Mundi 2010, até esqueci momentaneamente de ver se havia algum comentário por aqui!

    Agradeço imensamente as suas palavras, que também trazem ótimas reflexões!

    Pois é, a questão do interesse ou falta dele durante a segunda palestra foi mesmo o cúmulo. Quando nós realmente gostamos e admiramos o trabalho de alguém, não conseguimos aceitar que a maioria ali não pareça sentir o mesmo, em um público que - aparentemente - devia era propagar aquelas palavras do Pedro.

    Como você, minha influência para querer ser escritor, também brotou do gosto pela leitura, desde os 14 anos, quando comecei a escrever e ler com vontade. De autores como Moacyr Scliar, Walcyr Carrasco, Conan Doyle... entre outros.

    Também penso o quanto realmente vale, o quanto significa palestras como essa. Mas é exatamente como você disse. É óbvio que as palavras do escritor acabam chegando de verdade sempre a poucas pessoas, principalmente com tão pouco incentivo à leitura que temos no páis, mas são justamente essas pessoas que farão a diferença, que compensarão todo o trabalho do escritor.

    Se eu conseguir de alguma maneira motivar, animar, balançar, inspirar alguém com o que escrevo, acredito estar fazendo bem o meu trabalho, e é isso que importa! Ainda não tenho nenhum livro publicado, mas essa é uma meta que tenho buscado com cada vez mais determinação.

    Foi um prazer vê-la por aqui, e fico feliz que tenha gostado do meu texto! O blog até tem boas visitas, mas poucos comentam as postagens. Mas tenho a certeza de que mesmo poucos, são comentários como o seu que fazem a diferença, que motivam a continuar levando este espaço adiante!

    E pode escrever à vontade por aqui, já que essa é uma das propostas do blog! Eu também não costumo poupar palavras para expressar o que penso. A propósito, você já tem algo publicado?

    Um grande abraço para você também!

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  3. Oi de novo... Desculpa a demora em responder a resposta (!) Mas da mesma forma eu também esqueci de ver se você tinha me respondido... Essa vida louca, vida da gente.

    Eu comecei no começo do ano passado a fazer umas experimentações na net. Escrevi, durante 80 dias ininterruptos, um blog inspirado na obra Lucíola. Se você quiser dar uma olhada, ou melhor uma lida (http://luciola-dontkissandtell.blogspot.com/). Na verdade não é bem um blog, já que as histórias são fictícias. Mas foi um processo muito legal, escrever como um trabalho. Todo dia tinha um texto novo.

    Outra experimentação foi no campo teatral. Colaborei com algumas peças do meu grupo. Em breve estarei lançando um site, onde escreverei mais ou menos como um folhetim. Um capítulo novo a cada semana. Mas cada dia da semana vai ter uma história diferente. Ou seja, vão ser 5! To correndo atrás aqui. rsrs

    É isso, um grande abraço e se quiser me falar o que achou dos meus textos (amelia_lobo@hotmail.com)

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  4. Opa, desculpa por mais um atraso na resposta! Essa época de final de ano foi muito cheia, para todos, sem dúvida, e quase não pude entrar aqui para ver como estão as coisas ou postar algo novo, (risos!).

    Estou vendo seu blog e achando bem interessante; um texto forte, denso e bastante atrativo. Vou olhar com mais calma assim que puder!

    Abraço!

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